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segunda-feira, 18 de outubro de 2010

Em 1888 Eça escrevia assim.

Ega: - Então, Cohen, diga-nos você, conte-nos cá... O empréstimo faz-se ou não se faz?
E acirrou a curiosidade, dizendo para os lados que aquela questão do empréstimo era grave. Uma operação tremenda, um verdadeiro episódio histórico!...

(…) Os empréstimo em Portugal constituíam hoje uma das fontes de receita, tão regular, tão indispensável, tão sabida como o imposto. A única ocupação dos ministérios era mesma esta -«cobrar o imposto» e «fazer o empréstimo». E assim se havia de continuar...

Cohen, sorrindo. - Ah, sobre isso, ninguém tem ilusões, meu caro senhor. Nem os próprios ministros da Fazenda!... A bancarrota é inevitável: é como quem faz uma soma...

- A bancarrota é tão certa, as coisas estão dispostas para ela – continuava o Cohen – que seria mesmo fácil a qualquer, em dois ou três anos, fazer falir o país...


Eça de Queirós, in Os Maias, pág. 165

Por isso houve um General Romano que no século I ou II a.c., nos descreveu assim a Caio Júlio César:

"Há, na parte mais ocidental da Ibéria, um povo muito estranho: não se governa, nem se deixa governar!"

domingo, 25 de abril de 2010

Diálogo





A cruz dizia à terra onde assentava,
Ao vale obscuro, ao monte áspero e mudo:
— Que és tu, abismo e jaula, aonde tudo
Vive na dor e em luta cega e brava?

Sempre em trabalho, condenada escrava.
Que fazes tu de grande e bom, contudo?
Resignada, és só lodo informe e rudo;
Revoltosa, és só fogo e horrida lava...

Mas a mim não há alta e livre serra
Que me possa igualar!.. amor, firmeza,
Sou eu só: sou a paz, tu és a guerra!

Sou o espírito, a luz!.. tu és tristeza,
Oh lodo escuro e vil! — Porém a terra
Respondeu: Cruz, eu sou a Natureza!

Antero de Quental, in "Sonetos"

terça-feira, 26 de janeiro de 2010

Uma janela para o infinito.


"Tenta fazer esta experiência, construindo um palácio. Equipa-o com mármore, quadros, ouro, pássaros do paraíso, jardins suspensos, todo o tipo de coisas... e entra lá para dentro. Bem, pode ser que nunca mais desejasses sair daí. Talvez, de facto, nunca mais saisses de lá. Está lá tudo! "Estou muito bem aqui sozinho!". Mas, de repente - uma ninharia! O teu castelo é rodeado por muros, e é-te dito: 'Tudo isto é teu! Desfruta-o! Apenas não podes sair daqui!". Então, acredita-me, nesse mesmo instante quererás deixar esse teu paraíso e pular por cima do muro. Mais! Todo esse luxo, toda essa plenitude, aumentará o teu sofrimento. Sentir-te-ás insultado como resultado de todo esse luxo... Sim, apenas uma coisa te falta... um pouco de liberdade"

Fiodor Dostoievski, in "O Movimento de Liberação".

quarta-feira, 16 de setembro de 2009

Sky


"Olhou para o céu e viu os brancos cúmulos erguendo-se como simpáticos barquinhos de gelado e, altas por cima, estavam as finas penas dos cirros contra o vasto céu de Setembro."

Hemingway, Ernest, in "O velho e o Mar"

segunda-feira, 14 de setembro de 2009

Deep.


"Já tarde acompanhei Antero à casa que ele habitava na Rua de Cedofeita. Conversámos sobre os seus planos - porque agora as «pequenas», crescidas, iam sair das Doroteias, e para as instalar no mundo, devia ele repenetrar no mundo. Pensava pois em voltar à sua ilha, a S. Miguel, como sendo um mundo mais sereno, mais puro, mais fácil. Lisboa, para Antero, era uma Nínive revolta e sórdida. Diante da sua porta aberta ainda nos retardámos em pensamentos ligeiros da vida e da sorte. Por fim: - «Adeus, Santo Antero!» - «Velho amigo, adeus!» Ele mergulhou lentamente na sombra do corredor... E não o vi mais, nunca mais!"

Eça de Queiros, in "A vida de Antero de Quental"

sábado, 12 de setembro de 2009

A torre.


"E daí, da sua cadeira de couro, Gonçalo Mendes Ramires, pensativo diante das tiras de papel almaço, roçando pela testa a rama de pena de pato, avistava sempre a inspiradora da sua Novela - a Torre, a antiquíssima Torre, quadrada e negra sobre os limoeiros do pomar que em redor crescera, com uma pouca de hera no cunhal rachado, as fundas frestas gradeadas de ferro, as ameias e a miradoura bem cortadas no azul de junho, robusta sobrevivência do Paço acastelado, da falada Honra de Santa Irenéia, solar dos Mendes Ramires desde os meados do século X."

Eça de Queiros, in "A ilustre casa de Ramires"

segunda-feira, 31 de agosto de 2009

...

"[...]A janela é larga e baixa; parece-me mais ornada e também mais antiga que o resto do edifício que todavia mal se vê...
Interessou-me aquela janela.
Quem terá o bom gosto e a fortuna de morar ali?
Parei e pus-me a namorar a janela.
Encantava-me, tinha-me ali como num feitiço.
Pareceu-me entrever uma cortina branca... e um vulto por detrás.
Imaginação decerto! Se o vulto fosse feminino!... era completo o
romance.
Como há de ser belo ver o pôr o sol daquela janela!...[...]"

Almeida Garret, in "Viagens na minha terra"

sábado, 29 de agosto de 2009

Recantos.


[...] penetrava-se n'uma vereda larga, entre quintais, descendo pelo pendor da colina, mas acessivel a carruagens; e aí, n'um recanto, ladeada de muros, aparecia enfim uma casota de paredes enxovalhadas, com dois degraus de pedra à porta, e transparentes novos dum escarlate estridente.[...]

Eça de Queirós, in "Os Maias"

quinta-feira, 20 de agosto de 2009


IX
Sou um guardador de rebanhos.
O rebanho é os meus pensamentos
E os meus pensamentos são todos sensações.
Penso com os olhos e com os ouvidos
E com as mãos e os pés
E com o nariz e a boca.
Pensar uma flor é vê-la e cheirá-la
E comer um fruto é saber-lhe o sentido.
Por isso quando num dia de calor
Me sinto triste de gozá-lo tanto,
E me deito ao comprido na erva,
E fecho os olhos quentes,
Sinto todo o meu corpo deitado na realidade,
Sei a verdade e sou feliz.
Fernando Pessoa, in "O guardador de rebanhos"

quarta-feira, 19 de agosto de 2009

The doors of perception.

"If the doors of perception were cleansed, everything would appear to man as it is, infinite"
(Se as portas da percepção estivessem livres, tudo se mostraria ao homem como é, infinito).

William Blake, in "O Casamento do Céu e do Inferno" (1793)

terça-feira, 18 de agosto de 2009

...


(…) Apesar deste fresco nome de vivenda campestre, o Ramalhete, sombrio casarão de paredes severas, com um renque de estreitas varandas de ferro no primeiro andar, e por cima uma tímida fila de janelinhas abrigadas à beira do telhado, tinha o aspecto tristonho de Residência Eclesiástica que competia a uma edificação do reinado da Sr.ª D. Maria I: com uma sineta e com uma cruz no topo assemelhar-se-ia a um Colégio de Jesuítas. O nome de Ramalhete provinha de certo dum revestimento quadrado de azulejos fazendo painel no lugar heráldico do Escudo d'Armas, que nunca chegara a ser colocado, e representando um grande ramo de girassóis atado por uma fita onde se distinguiam letras e números duma data.
Longos anos o Ramalhete permanecera desabitado, com teias d'aranha pelas grades dos postigos térreos, e cobrindo-se de tons de ruína. (…)
(…) o Ramalhete possuía apenas, ao fundo dum terraço de tijolo, um pobre quintal inculto, abandonado às ervas bravas, com um cipreste, um cedro, uma cascatazinha seca, um tanque entulhado, e uma estatua de mármore (…) enegrecendo a um canto na lenta humidade das ramagens silvestres. (…)

Eça de Queirós, in "Os Maias"

segunda-feira, 27 de julho de 2009

Without time, without escape.

"Os povos primitivos não conheciam a necessidade de dividir o tempo em filigranas. Para os antigos não existiam minutos ou segundos. Artistas como Stevenson ou Gauguin fugiram da Europa e aportaram em ilhas onde não havia relógios. Nem o carteiro nem o telefone apoquentavam Platão. Virgílio nunca precisou de correr para apanhar um comboio. Descartes perdeu-se em pensamentos nos canais de Amsterdão. Hoje, porém, os nossos movimentos são regidos por frações exactas de tempo. Até mesmo a vigésima parte de um segundo começa a não mais ser irrelevante em certas áreas técnicas."

Paul Valéry, in 'A Busca da Inteligência'

domingo, 19 de julho de 2009

(...)

"Gosto dos venenos mais lentos, das bebidas mais amargas, das drogas mais poderosas, das idéias mais insanas, dos pensamentos mais complexos, dos sentimentos mais fortes… tenho um apetite voraz e os delírios mais loucos.
Você pode até me empurrar de um penhasco que eu vou dizer:
- E daí? Eu adoro voar!
Não me dêem fórmulas certas, por que eu não espero acertar sempre. Não me mostrem o que esperam de mim, por que vou seguir meu coração. Não me façam ser quem não sou. Não me convidem a ser igual, por que sinceramente sou diferente. Não sei amar pela metade. Não sei viver de mentira. Não sei voar de pés no chão. Sou sempre eu mesma, mas com certeza não serei a mesma pra sempre."

Clarice Lispector (1920-1977)

sexta-feira, 17 de abril de 2009

O que vale o vento?

Está hoje um dia de vento e eu gosto do vento
O vento tem entrado nos meus poemas de todas as maneiras
e só entram nos meus versos as coisas de que eu gosto
O vento das árvores o vento dos cabelos
o vento do inverno o vento do verão
O vento é o melhor veículo que conheço
Só ele traz o perfume das flores
só ele traz a música que jáz à beira-mar em agosto
Mas só hoje soube o verdadeiro valor do vento
O vento actualmente vale oitenta escudos
Partiu-se o vidro grande da janela do meu quarto

Ruy Belo in Orla Marítima e Outros Poemas (Assírio&Alvim, 2008)

segunda-feira, 30 de março de 2009

Oscar Wilde.


" Escolho os meus amigos não pela cor da pele ou outro arquétipo qualquer, mas pela pupila... Tem que ter um brilho questionador e uma tonalidade inquietante... A mim não me interessam os bons de espírito nem os maus de hábitos... Fico com aqueles que fazem de mim um louco e um santo... Deles não quero resposta, quero o meu avesso... Que me tragam dúvidas e angústias e aguentem o que há de pior em mim... Para isso, só sendo louco... Quero-os santos, para que não duvidem das diferenças e peçam perdão pelas injustiças... Escolho os meus amigos pela cara lavada e pela Alma exposta... Não quero só o ombro ou o colo, quero também a sua maior alegria... Amigo que não se ri comigo não sabe sofrer comigo... Os meus amigos são todos assim: metade idiotice, metade seriedade... Não quero risos previsíveis nem choros piedosos... Quero amigos sérios, daqueles que fazem da realidade uma fonte de aprendizagem, mas que lutam para que a fantasia não desapareça... Não quero amigos adultos nem aborrecidos... Quero-os metade infância e outra metade velhice... Crianças, para que não se esqueçam do valor do vento no rosto, e velhos, para que nunca tenham pressa... Tenho amigos para saber quem sou... Pois vendo-os loucos e santos, idiotas e sérios, crianças e velhos, nunca me esquecerei de que a "normalidade" é uma ilusão imbecil e estéril... "

sexta-feira, 27 de março de 2009

É isto mesmo.

"A vida é isso que estás a ver:
Hoje sorris,
Amanhã não sorris,
E segunda-feira ninguém sabe o que será."


Carlos Drummond de Andrade.

quarta-feira, 5 de novembro de 2008

Ternura.




Definição de Avó

Artigo redigido por uma menina de 8 anos e publicado no Jornal do Cartaxo.

"Uma Avó é uma mulher que não tem filhos, por isso gosta dos filhos dos outros.
As Avós não têm nada para fazer, é só estarem ali. Quando nos levam a passear, andam devagar e não pisam as flores bonitas nem as lagartas.
Nunca dizem "Despacha-te!". Normalmente são gordas, mas mesmo assim conseguem apertar-nos os sapatos.
Sabem sempre que a gente quer mais uma fatia de bolo ou uma fatia maior.
As Avós usam óculos e às vezes até conseguem tirar os dentes.
Quando nos contam historias, nunca saltam bocados e nunca se importam de contar a mesma história várias vezes.
As Avós são as únicas pessoas grandes que têm sempre tempo. Não são tão fracas como dizem, apesar de morrerem mais vezes do que nós.

Toda a gente deve fazer o possível por ter uma Avó, sobretudo se não tiver Televisão".

sexta-feira, 31 de outubro de 2008

"O Lobo Ferido e a Ovelha"



Um Lobo, gravemente mordido pelos cães, jazia deitado no chão. Como tinha fome e sede, pediu a uma Ovelha que lhe trouxesse água de um rio que corria ali perto. E acrescentou:

- Se me trouxeres de beber, eu próprio me encarregarei de encontrar de comer.

- Sim - respondeu-lhe a Ovelha. - Se eu te trouxer de beber, sem dúvida que eu própria serei o teu almoço.

Fábula de Esopo

Moral da história:
De boas intenções está o inferno cheio.

La marioneta





Se, por um instante, Deus se esquecesse de que sou uma marionete de trapo e me presenteasse com um pedaço de vida, possivelmente não diria tudo o que penso, mas, certamente, pensaria tudo o que digo.

Daria valor às coisas, não pelo que valem, mas pelo que significam.

Dormiria pouco, sonharia mais, pois sei que a cada minuto que fechamos os olhos, perdemos sessenta segundos de luz. Andaria quando os demais parassem, acordaria quando os outros dormem. Escutaria quando os outros falassem e gozaria um bom sorvete de chocolate.

Se Deus me presenteasse com um pedaço de vida, vestiria simplesmente, me jogaria de bruços no solo, deixando a descoberto não apenas meu corpo, como minha alma.

Deus meu, se eu tivesse um coração, escreveria meu ódio sobre o gelo e esperaria que o sol saísse. Pintaria com um sonho de Van Gogh sobre estrelas um poema de Mario Benedetti e uma canção de Serrat seria a serenata que ofereceria à Lua. Regaria as rosas com minhas lágrimas para sentir a dor dos espinhos e o encarnado beijo de suas pétalas.

Deus meu, se eu tivesse um pedaço de vida. Não deixaria passar um só dia sem dizer às gentes – te amo, te amo. Convenceria cada mulher e cada homem que são os meus favoritos e viveria enamorado do amor.

Aos homens, lhes provaria como estão enganados ao pensar que deixam de se apaixonar quando envelhecem, sem saber que envelhecem quando deixam de se apaixonar. A uma criança, lhe daria asas, mas deixaria que aprendesse a voar sozinha.

Aos velhos ensinaria que a morte não chega com a velhice, mas com o esquecimento. Tantas coisas aprendi com vocês, os homens...

Aprendi que todo mundo quer viver no cimo da montanha, sem saber que a verdadeira felicidade está na forma de subir a escarpa.

Aprendi que quando um recém-nascido aperta com sua pequena mão pela primeira vez o dedo de seu pai, o tem prisioneiro para sempre. Aprendi que um homem só tem o direito de olhar um outro de cima para baixo para ajudá-lo a levantar-se.

São tantas as coisas que pude aprender com vocês, mas, finalmente, não poderão servir muito porque quando me olharem dentro dessa maleta, infelizmente estarei morrendo.